terça-feira, 10 de março de 2015

Fábio Carvalho e sua intervenção urbana "Aposto" pelas ruas de Lisboa

O artista brasileiro Fábio Carvalho está novamente em Lisboa a realizar uma residência artística de onde surge a sua intervenção urbana “Aposto”.

Fábio Carvalho - Aposto - Lisboa
 impressão a laser, cola de amido . 2015

O seu primeiro projecto de intervenção urbana em Lisboa foi realizado durante as festas dos Santos Populares. Esta intervenção chamada de “Migração Monarca” traduziu-se pela introdução, nas decorações já existentes, de pequenas bandeiras de papel de seda com os seus “Monarcas”, soldados em uniforme camuflado com asas de borboletas.

Fábio Carvalho - Migração Monarca - Lisboa
impressão (tinta acrílica) com carimbos s/ papel de seda, linha, cola | 2014

Fábio Carvalho é também um apaixonado pelos azulejos antigos, tendo até um projecto paralelo de levantamento dos azulejos antigos na sua cidade, o Rio de Janeiro. O mesmo pode ser acompanhado através do blog: azulejosantigosrj.blogspot.com.br. Ao mesmo tempo, desde que começou a vir a Lisboa com regularidade, ficou interessado pelos “remendos” errados feitos com padrões de azulejos diferentes dos originais para colmatar faltas. Estes novos padrões criados foram um dos pontos de partida para este novo projecto de intervenção artística chamado de “Aposto”. 

O artista criou um novo padrão de azulejo, a partir de fotos das suas peças da série “Delicado Desejo”. Esta série é composta por armas de fogo criadas a partir de um patchwork de diversas rendas.

Fábio Carvalho - Desejo Delicado - rendas diversas - 2015

O novo padrão de azulejo foi impresso em papel e posteriormente aplicados com cola de amido em fachadas de prédios onde os azulejos originais estavam em falta, por deterioração ou roubo. Nenhum dos azulejos reais foram cobertos pelos azulejos de papel do artista.

Fábio Carvalho - Aposto - Lisboa
 impressão a laser, cola de amido . 2015

Os seus azulejos de papel, ao mesmo tempo que causam uma certa estranheza ao olhar, fundem-se também com os azulejos originais. Pode haver até quem não dê por eles ou os assuma como azulejos do próprio prédio.

Fábio Carvalho - Aposto - Lisboa
 impressão a laser, cola de amido . 2015

Reflecte-se também aqui a dicotomia que o artista utiliza em seus trabalhos, onde joga com a sobreposição e conflito entre os estereótipos de masculinidade e os elementos tradicionalmente atribuídos exclusivamente ao universo feminino. Temos as armas feitas em rendas e temos a própria dicotomia entre os seus azulejos de papel e os azulejos originais, mas esta dicotomia funde-se numa unidade que é o seu próprio trabalho.

Fábio Carvalho - Aposto - Lisboa
 impressão a laser, cola de amido . 2015

Na página hs13rclisboa.blogspot.pt, é possível acompanhar a evolução da intervenção urbana, onde nos é dado até mesmo um mapa, com a localização exacta de cada fachada azulejada que recebeu a intervenção de Fábio Carvalho,  para que possamos passear pelas ruas de Lisboa e ir descobrindo cada detalhe desta intervenção.


Depois de alguns meses regressa a Lisboa onde desenvolve mais um projecto em arte urbana na capital, como Lisboa o motivou e inspirou para o universo da arte urbana?

O curioso é que os dois projetos de arte de rua que realizei em Lisboa partiram de projetos criados para situações “internas”, de galeria, e que foram imediatamente seguidos de viagens para Portugal, o que me estimulou a pensar formas de transformar estes projetos em algo transportável, e que pudesse acontecer independente de uma exposição “oficial” em espaço de galeria. As ruas foram a saída natural. O primeiro projeto já nasceu com vocação para arte de rua, pois resultou de um convite para uma exposição de obras de arte efêmeras em papel de seda, para serem coladas na forma de “lambe-lambe” nas paredes da galeria, e depois descartadas. Como a exposição seria em junho, eu criei algo similar às bandeirinhas de São João, que são usadas na decoração das ruas em nossas festas juninas, que correspondem às festas dos santos populares de Portugal. Então era já um projeto informado por práticas “de rua” que foi instalado num espaço interno, naturalmente com um outro contexto e conceito, que em Lisboa voltou para as ruas, acontecendo também em junho, misturado às decorações para as festas dos santos.
Quanto à inspiração, nos dois projetos (Migração Monarca, em 2014, e Aposto, em curso agora em 2015) houve o desejo de orientar estes trabalhos a partir de manifestações culturais tipicamente lisboetas, e ao mesmo tempo mesclar os próprios projetos a estes aspectos culturais que informam e guiam os projetos. No primeiro caso, as ornamentações das festas dos santos populares, e no segundo, as fachadas azulejares. E também ambos são elementos de aproximação ou de paralelo entre a cultura portuguesa/lisboeta e a brasileira/carioca.
Quando você fala em arte urbana, sinto a necessidade de fazer uma observação. O que fiz nestas duas vezes em Lisboa trata-se mais de intervenção artística no espaço urbano do que o tradicionalmente entendido como arte urbana. No meu caso foram sempre projetos de uma escala discreta; não são paredes inteiras, muros de 5 metros de extensão, ou esculturas monumentais. São peças pequenas, infiltradas. Não são obras que cobrem e ocupam de forma incisiva e chamativa um espaço e uma superfície. Meus dois projetos atuam como pequenas inserções, peças que invadem quase como um parasita e que se agregam ao hospedeiro maior e já existente. As peças aparecem mais pelo contraste que provocam, por perturbarem ou provocarem o que já está lá, do que se impondo de cima para baixo a um espaço. São peças que exigem uma aproximação, uma intimidade, para que possam agir. Ficam dormentes até que você as ative com seu olhar. Não gritam — sussurram. São vírus, e não elefantes. E vírus podem derrubar elefantes.

Qual o adjectivo que utilizaria para descrever a Lisboa de hoje em dia?

Não exatamente um adjetivo, mas acho o caso de usar a expressão “work in progress”.

Como acha que a arte urbana contribui para a cidade?

Na forma mais simples de se entender a questão, ela pode transformar um espaço feio e brutalizado em um espaço mais estimulante, mais vivo. Mas muito mais interessante do que isso, a arte urbana muitas vezes traz em si um caráter de manifestação ou denúncia social, creio que foi mesmo esta sua origem histórica, e isto pode estimular mais pessoas à reflexão de seus problemas ou dos problemas do seu entorno ou de outras pessoas ao seu redor. Em qualquer dos casos, se uma dada peça de arte urbana “funciona”, ela trará mais dinamismo para as pessoas e espaços.

A arte urbana tem, a cada dia mais, deixado de ser vista como vandalismo ou unicamente pertença das ruas. Tendo entrado em feiras de arte, exposições e galerias, acredita que este processo pode enfraquecer a arte urbana como forma de arte interventiva?

Pode ou não. Isto depende muito mais de cada artista, de como ele lida com este “oficialismo”, com o enquadramento da dita arte urbana por parte de galerias, museus e outras instituições culturais. Penso ainda que quando a arte urbana deixa as ruas e vai para dentro dos espaços protegidos e fetichizantes deixa de ser obviamente arte urbana, torna-se outra coisa, e esta transposição não pode se dar de forma tão ingênua e mal pensada, e até oportunista em alguns casos, como muitas vezes acontece.

Que diferenças vê entre a arte urbana no Rio de Janeiro e em Lisboa?

Uma coisa que notei rapidamente aqui é que a arte urbana em Lisboa é bastante institucionalizada, “séria”, quase oficial, enquanto no Rio ela ainda guarda um caráter mais “rebelde”; é mais espontânea. Os artistas urbanos de Lisboa são tratados por “senhores”, apesar dos gorros, tênis Converse e jaquetas com capuz. São sujeitos que falam pausadamente, de forma quase acadêmica às vezes. Eles são contratados ou convidados a fazer trabalhos sobre espaços previamente escolhidos e determinados por órgãos ou instituições. Alguns deles são verdadeiras estrelas, seus nomes são marcas comerciais, possuem uma indústria por trás de si. Se por um lado é ótimo que haja na Câmara de Lisboa um órgão que estimule a arte urbana (Galeria de Arte Urbana - GAU), por outro isto tornou a arte de rua algo algumas vezes tão pesada quanto a “arte séria” nas galerias e feiras de arte. Há também um perigo de excesso de controle sobre o que pode ou não acontecer. Claro que isso também acontece no Brasil, mas é exceção. Falei dos “espaços fetichizantes” antes, e percebo que aqui em Lisboa isso acontece mesmo nas ruas, nos muros. Já houve caso de um grafite, algo que deveria ser pensando como efêmero e vulnerável, mesmo quando “sob encomenda”, que após ter sido “vandalizado”, providenciaram sua “devida restauração”, e ainda por cima lhe aplicaram um verniz especial para que ele não fosse mais “danificado” por terceiros. Já ouvi artista chamar de “cliente” quem o convida para executar um trabalho, e dizer que trabalha “de acordo com o orçamento disponível do cliente”. Não acho em nada ruim ou errado que os artistas de rua sejam pagos por seu trabalho, acho corretíssimo, mas quando a prata vem antes ou acima da arte, e não há arte se não houver prata, algo está estranho.

Em “Aposto” intervem em fachadas azulejadas da capital, utilizando os espaços deixados pela perda ou roubo dos azulejos tradicionais. Entre o chamar a atenção para este problema de degradação de fachadas, o devolver uma imagem roubada ao espaço e o causar uma estranheza ao olhar, quer pela intervenção, quer pelo desenho que inclui armas elaboradas com rendas, qual dos motivos o inspirou mais e de qual deles surgiu esta ideia?

Eu recentemente, depois de quase 3 semanas imerso no processo de intervenção urbana Aposto, me dei conta que já em 2011 havia pensando um projeto de arte para Lisboa baseado em azulejos. Não era para o espaço público externo, mas sim para a cave de uma instituição cultural, projeto este que não aconteceu. E eram já azulejos de papel, temporários, descartáveis. Em 2013 fui convidado junto a mais 9 artistas de vários países para um outro projeto que envolveria criar um painel de azulejos reais, cerâmicos, que seria instalado em caráter permanente em uma fachada de algum imóvel devoluto de Lisboa, projeto que não foi em frente por falta de financiamento. Acho que estes projetos, mesmo que não concretizados, deixaram suas marcas em mim.
Outra coisa que sempre adorei, e que talvez esteja inconscientemente por trás do projeto Aposto, é “colecionar”, na forma de fotografias, os remendos que as pessoas fazem nas fachadas, preenchendo os buracos deixados pelos azulejos perdidos com azulejos que muitas vezes não tem nada a ver com o padrão original da fachada, gerando patchworks fantásticos.

Os seus azulejos de papel reúnem em seu desenho, a renda, pertencente ao universo feminino e as armas, pertença do mundo masculino. Joga com a identidade de género constante ao longo do seu trabalho. Quanto ao azulejo em si, considera-o pertença do universo feminino ou do universo masculino?

Os azulejos são um excelente exemplo de convívio e fusão destes dois territórios, pois são um produto de manufatura, de indústria, do mundo empresarial e comercial complexo, que tradicionalmente são vistos como do território masculino, da força, do poder, da economia, mas que são peças de uso ornamental, muitas vezes trazem flores, volutas, firulas, cores, e os ornamentos são tradicionalmente encarados como sendo do universo feminino, do terreno do delicado. Mas ao ornamentar, indicam maior ou menor riqueza do proprietário, valorizam o imóvel, que é um bem patrimonial, que historicamente é algo masculino; o legado de uma família sempre foi preferencialmente transmitido ao primeiro filho homem. Este tipo de dualidade informa meu trabalho. Quase sempre uso elementos produzidos e pensados industrialmente, em larga escala, de forma impessoal, bruta, insensível, visando o comércio, o lucro, mas para o consumo (estereotipado) feminino.

Que projectos se seguem?

Tive já o convite para  duas exposições individuais no Brasil, que acontecerão pouco depois de meu retorno de Portugal, uma em São Paulo e outra no Rio de Janeiro, que de formas bem diferentes apresentarão resultados ou derivações dos resultados das experiências nestes 40 dias em Lisboa. Os convites partiram justamente do interesse que meu projeto aqui em Lisboa despertou nas pessoas que me convidaram. Digo isso para frisar como é importante se pensar no trabalho primeiro, na criação em si, produzir independente de objetivos práticos imediatos, produzir em função de suas necessidades íntimas, suas questões artísticas e filosóficas particulares, e não produzir em função do que pode agradar ou “emplacar”, para só depois, em decorrência de um produto final já bem amadurecido conceitualmente, e plenamente realizado, colher resultados práticos (exposições, publicações, etc.). É também interessante notar como um projetos de galeria no Brasil gerou projetos de intervenção urbana em Portugal, e agora tudo retorna à casa, transformado. Parece mesmo a história de mais de 500 anos da relação Brasil/Portugal, só que no sentido inverso.

O que todas as pessoas deveriam saber?

Quando comecei o projeto de residência artística HS13rc em autogestão para Lisboa, lancei esta declaração, de forma provocativa: “O artista não depende da instituição, O ARTISTA É A INSTITUIÇÃO”, que acabou se tornando meio que  um mantra para mim, e que penso que pode ser aplicado à vida de qualquer pessoa, não apenas em seus aspectos profissionais, mas de uma forma geral. Não é preciso autorização ou legitimação externa para se criar ou se ter certeza de que seu trabalho tem valor. Precisamos nos lembrar mais frequentemente disso, que todos temos o poder de começar uma micro revolução pessoal, que sempre afetará algo ou alguém. 

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