quinta-feira, 9 de abril de 2015

LisbonWeek 2015 Alvalade




A 3ª edição do LisbonWeek está a chegar e Alvalade foi o bairro escolhido. Uma viagem pela modernidade e vanguarda de Lisboa dos anos 50. 

De 10 a 19 de Abril poderemos explorar o bairro de Alvalade através de 11 visitas culturais a edifícios emblemáticos e 12 exposições.

Poderemos assim conhecer espaços tão marcantes como a Biblioteca Nacional de Portugal, a Reitoria da Universidade de Lisboa, a Torre do Tombo, o Jardim do Campo Grande, o Museu de Lisboa - Palácio Pimenta, o Museu Bordallo Pinheiro, o Hospital Júlio de Matos, o Laboratório Nacional de Engenharia Civil ou o Complexo dos Coruchéus.

Poderemos também, através de dois passeios de autocarro, ter um novo olhar sobre o plano urbanístico do bairro e da obra de Porfírio Pardal Monteiro, um dos mais importantes arquitectos do início do séc. XX em Portugal.


Entre as várias exposições, quatro delas de entrada livre, temos:


“Encontrar Maria Keil”. Conhecer a história por trás dos painéis de azulejos pelos quais passamos tantas vezes e pouco sabemos. Estação de metropolitano de Alvalade, de 2ª a Domingo das 6.30h à 1.00h, entrada livre (necessário bilhete de acesso ao cais de embarque da estação)


“Urban Sketchers”. Desenhos de diários gráficos que retratam o bairro e suas vivências. Reitoria da Universidade de Lisboa, de 2ª a 6ª Feira das 10.00h às 19.00h.


“Exposição Porfírio Pardal Monteiro”. Poderemos conhecer melhor a sua obra, como por exemplo, a Estação do Cais do Sodré ou as gares Marítimas através dos seus desenhos originais. Biblioteca Nacional de Portugal, de 2ª a 6ª Feira das 9.30h às 19.30h, Sábados das 9.30h às 17.30h

O bairro de Alvalade não figura no roteiro turístico da cidade mas a cada dia cresce o número de turistas que viajam para ver arquitectura e Alvalade tem uma série de pontos de interesse a este nível. 


O bairro que por alguns era considerado envelhecido está a renascer a cada dia. Aproveitem para conhecê-lo um pouco melhor. 


A compra de bilhetes pode ser feita no TICKETLINE - LISBONWEEK

Mais informações em: lisbonweek.com





terça-feira, 10 de março de 2015

Fábio Carvalho e sua intervenção urbana "Aposto" pelas ruas de Lisboa

O artista brasileiro Fábio Carvalho está novamente em Lisboa a realizar uma residência artística de onde surge a sua intervenção urbana “Aposto”.

Fábio Carvalho - Aposto - Lisboa
 impressão a laser, cola de amido . 2015

O seu primeiro projecto de intervenção urbana em Lisboa foi realizado durante as festas dos Santos Populares. Esta intervenção chamada de “Migração Monarca” traduziu-se pela introdução, nas decorações já existentes, de pequenas bandeiras de papel de seda com os seus “Monarcas”, soldados em uniforme camuflado com asas de borboletas.

Fábio Carvalho - Migração Monarca - Lisboa
impressão (tinta acrílica) com carimbos s/ papel de seda, linha, cola | 2014

Fábio Carvalho é também um apaixonado pelos azulejos antigos, tendo até um projecto paralelo de levantamento dos azulejos antigos na sua cidade, o Rio de Janeiro. O mesmo pode ser acompanhado através do blog: azulejosantigosrj.blogspot.com.br. Ao mesmo tempo, desde que começou a vir a Lisboa com regularidade, ficou interessado pelos “remendos” errados feitos com padrões de azulejos diferentes dos originais para colmatar faltas. Estes novos padrões criados foram um dos pontos de partida para este novo projecto de intervenção artística chamado de “Aposto”. 

O artista criou um novo padrão de azulejo, a partir de fotos das suas peças da série “Delicado Desejo”. Esta série é composta por armas de fogo criadas a partir de um patchwork de diversas rendas.

Fábio Carvalho - Desejo Delicado - rendas diversas - 2015

O novo padrão de azulejo foi impresso em papel e posteriormente aplicados com cola de amido em fachadas de prédios onde os azulejos originais estavam em falta, por deterioração ou roubo. Nenhum dos azulejos reais foram cobertos pelos azulejos de papel do artista.

Fábio Carvalho - Aposto - Lisboa
 impressão a laser, cola de amido . 2015

Os seus azulejos de papel, ao mesmo tempo que causam uma certa estranheza ao olhar, fundem-se também com os azulejos originais. Pode haver até quem não dê por eles ou os assuma como azulejos do próprio prédio.

Fábio Carvalho - Aposto - Lisboa
 impressão a laser, cola de amido . 2015

Reflecte-se também aqui a dicotomia que o artista utiliza em seus trabalhos, onde joga com a sobreposição e conflito entre os estereótipos de masculinidade e os elementos tradicionalmente atribuídos exclusivamente ao universo feminino. Temos as armas feitas em rendas e temos a própria dicotomia entre os seus azulejos de papel e os azulejos originais, mas esta dicotomia funde-se numa unidade que é o seu próprio trabalho.

Fábio Carvalho - Aposto - Lisboa
 impressão a laser, cola de amido . 2015

Na página hs13rclisboa.blogspot.pt, é possível acompanhar a evolução da intervenção urbana, onde nos é dado até mesmo um mapa, com a localização exacta de cada fachada azulejada que recebeu a intervenção de Fábio Carvalho,  para que possamos passear pelas ruas de Lisboa e ir descobrindo cada detalhe desta intervenção.


Depois de alguns meses regressa a Lisboa onde desenvolve mais um projecto em arte urbana na capital, como Lisboa o motivou e inspirou para o universo da arte urbana?

O curioso é que os dois projetos de arte de rua que realizei em Lisboa partiram de projetos criados para situações “internas”, de galeria, e que foram imediatamente seguidos de viagens para Portugal, o que me estimulou a pensar formas de transformar estes projetos em algo transportável, e que pudesse acontecer independente de uma exposição “oficial” em espaço de galeria. As ruas foram a saída natural. O primeiro projeto já nasceu com vocação para arte de rua, pois resultou de um convite para uma exposição de obras de arte efêmeras em papel de seda, para serem coladas na forma de “lambe-lambe” nas paredes da galeria, e depois descartadas. Como a exposição seria em junho, eu criei algo similar às bandeirinhas de São João, que são usadas na decoração das ruas em nossas festas juninas, que correspondem às festas dos santos populares de Portugal. Então era já um projeto informado por práticas “de rua” que foi instalado num espaço interno, naturalmente com um outro contexto e conceito, que em Lisboa voltou para as ruas, acontecendo também em junho, misturado às decorações para as festas dos santos.
Quanto à inspiração, nos dois projetos (Migração Monarca, em 2014, e Aposto, em curso agora em 2015) houve o desejo de orientar estes trabalhos a partir de manifestações culturais tipicamente lisboetas, e ao mesmo tempo mesclar os próprios projetos a estes aspectos culturais que informam e guiam os projetos. No primeiro caso, as ornamentações das festas dos santos populares, e no segundo, as fachadas azulejares. E também ambos são elementos de aproximação ou de paralelo entre a cultura portuguesa/lisboeta e a brasileira/carioca.
Quando você fala em arte urbana, sinto a necessidade de fazer uma observação. O que fiz nestas duas vezes em Lisboa trata-se mais de intervenção artística no espaço urbano do que o tradicionalmente entendido como arte urbana. No meu caso foram sempre projetos de uma escala discreta; não são paredes inteiras, muros de 5 metros de extensão, ou esculturas monumentais. São peças pequenas, infiltradas. Não são obras que cobrem e ocupam de forma incisiva e chamativa um espaço e uma superfície. Meus dois projetos atuam como pequenas inserções, peças que invadem quase como um parasita e que se agregam ao hospedeiro maior e já existente. As peças aparecem mais pelo contraste que provocam, por perturbarem ou provocarem o que já está lá, do que se impondo de cima para baixo a um espaço. São peças que exigem uma aproximação, uma intimidade, para que possam agir. Ficam dormentes até que você as ative com seu olhar. Não gritam — sussurram. São vírus, e não elefantes. E vírus podem derrubar elefantes.

Qual o adjectivo que utilizaria para descrever a Lisboa de hoje em dia?

Não exatamente um adjetivo, mas acho o caso de usar a expressão “work in progress”.

Como acha que a arte urbana contribui para a cidade?

Na forma mais simples de se entender a questão, ela pode transformar um espaço feio e brutalizado em um espaço mais estimulante, mais vivo. Mas muito mais interessante do que isso, a arte urbana muitas vezes traz em si um caráter de manifestação ou denúncia social, creio que foi mesmo esta sua origem histórica, e isto pode estimular mais pessoas à reflexão de seus problemas ou dos problemas do seu entorno ou de outras pessoas ao seu redor. Em qualquer dos casos, se uma dada peça de arte urbana “funciona”, ela trará mais dinamismo para as pessoas e espaços.

A arte urbana tem, a cada dia mais, deixado de ser vista como vandalismo ou unicamente pertença das ruas. Tendo entrado em feiras de arte, exposições e galerias, acredita que este processo pode enfraquecer a arte urbana como forma de arte interventiva?

Pode ou não. Isto depende muito mais de cada artista, de como ele lida com este “oficialismo”, com o enquadramento da dita arte urbana por parte de galerias, museus e outras instituições culturais. Penso ainda que quando a arte urbana deixa as ruas e vai para dentro dos espaços protegidos e fetichizantes deixa de ser obviamente arte urbana, torna-se outra coisa, e esta transposição não pode se dar de forma tão ingênua e mal pensada, e até oportunista em alguns casos, como muitas vezes acontece.

Que diferenças vê entre a arte urbana no Rio de Janeiro e em Lisboa?

Uma coisa que notei rapidamente aqui é que a arte urbana em Lisboa é bastante institucionalizada, “séria”, quase oficial, enquanto no Rio ela ainda guarda um caráter mais “rebelde”; é mais espontânea. Os artistas urbanos de Lisboa são tratados por “senhores”, apesar dos gorros, tênis Converse e jaquetas com capuz. São sujeitos que falam pausadamente, de forma quase acadêmica às vezes. Eles são contratados ou convidados a fazer trabalhos sobre espaços previamente escolhidos e determinados por órgãos ou instituições. Alguns deles são verdadeiras estrelas, seus nomes são marcas comerciais, possuem uma indústria por trás de si. Se por um lado é ótimo que haja na Câmara de Lisboa um órgão que estimule a arte urbana (Galeria de Arte Urbana - GAU), por outro isto tornou a arte de rua algo algumas vezes tão pesada quanto a “arte séria” nas galerias e feiras de arte. Há também um perigo de excesso de controle sobre o que pode ou não acontecer. Claro que isso também acontece no Brasil, mas é exceção. Falei dos “espaços fetichizantes” antes, e percebo que aqui em Lisboa isso acontece mesmo nas ruas, nos muros. Já houve caso de um grafite, algo que deveria ser pensando como efêmero e vulnerável, mesmo quando “sob encomenda”, que após ter sido “vandalizado”, providenciaram sua “devida restauração”, e ainda por cima lhe aplicaram um verniz especial para que ele não fosse mais “danificado” por terceiros. Já ouvi artista chamar de “cliente” quem o convida para executar um trabalho, e dizer que trabalha “de acordo com o orçamento disponível do cliente”. Não acho em nada ruim ou errado que os artistas de rua sejam pagos por seu trabalho, acho corretíssimo, mas quando a prata vem antes ou acima da arte, e não há arte se não houver prata, algo está estranho.

Em “Aposto” intervem em fachadas azulejadas da capital, utilizando os espaços deixados pela perda ou roubo dos azulejos tradicionais. Entre o chamar a atenção para este problema de degradação de fachadas, o devolver uma imagem roubada ao espaço e o causar uma estranheza ao olhar, quer pela intervenção, quer pelo desenho que inclui armas elaboradas com rendas, qual dos motivos o inspirou mais e de qual deles surgiu esta ideia?

Eu recentemente, depois de quase 3 semanas imerso no processo de intervenção urbana Aposto, me dei conta que já em 2011 havia pensando um projeto de arte para Lisboa baseado em azulejos. Não era para o espaço público externo, mas sim para a cave de uma instituição cultural, projeto este que não aconteceu. E eram já azulejos de papel, temporários, descartáveis. Em 2013 fui convidado junto a mais 9 artistas de vários países para um outro projeto que envolveria criar um painel de azulejos reais, cerâmicos, que seria instalado em caráter permanente em uma fachada de algum imóvel devoluto de Lisboa, projeto que não foi em frente por falta de financiamento. Acho que estes projetos, mesmo que não concretizados, deixaram suas marcas em mim.
Outra coisa que sempre adorei, e que talvez esteja inconscientemente por trás do projeto Aposto, é “colecionar”, na forma de fotografias, os remendos que as pessoas fazem nas fachadas, preenchendo os buracos deixados pelos azulejos perdidos com azulejos que muitas vezes não tem nada a ver com o padrão original da fachada, gerando patchworks fantásticos.

Os seus azulejos de papel reúnem em seu desenho, a renda, pertencente ao universo feminino e as armas, pertença do mundo masculino. Joga com a identidade de género constante ao longo do seu trabalho. Quanto ao azulejo em si, considera-o pertença do universo feminino ou do universo masculino?

Os azulejos são um excelente exemplo de convívio e fusão destes dois territórios, pois são um produto de manufatura, de indústria, do mundo empresarial e comercial complexo, que tradicionalmente são vistos como do território masculino, da força, do poder, da economia, mas que são peças de uso ornamental, muitas vezes trazem flores, volutas, firulas, cores, e os ornamentos são tradicionalmente encarados como sendo do universo feminino, do terreno do delicado. Mas ao ornamentar, indicam maior ou menor riqueza do proprietário, valorizam o imóvel, que é um bem patrimonial, que historicamente é algo masculino; o legado de uma família sempre foi preferencialmente transmitido ao primeiro filho homem. Este tipo de dualidade informa meu trabalho. Quase sempre uso elementos produzidos e pensados industrialmente, em larga escala, de forma impessoal, bruta, insensível, visando o comércio, o lucro, mas para o consumo (estereotipado) feminino.

Que projectos se seguem?

Tive já o convite para  duas exposições individuais no Brasil, que acontecerão pouco depois de meu retorno de Portugal, uma em São Paulo e outra no Rio de Janeiro, que de formas bem diferentes apresentarão resultados ou derivações dos resultados das experiências nestes 40 dias em Lisboa. Os convites partiram justamente do interesse que meu projeto aqui em Lisboa despertou nas pessoas que me convidaram. Digo isso para frisar como é importante se pensar no trabalho primeiro, na criação em si, produzir independente de objetivos práticos imediatos, produzir em função de suas necessidades íntimas, suas questões artísticas e filosóficas particulares, e não produzir em função do que pode agradar ou “emplacar”, para só depois, em decorrência de um produto final já bem amadurecido conceitualmente, e plenamente realizado, colher resultados práticos (exposições, publicações, etc.). É também interessante notar como um projetos de galeria no Brasil gerou projetos de intervenção urbana em Portugal, e agora tudo retorna à casa, transformado. Parece mesmo a história de mais de 500 anos da relação Brasil/Portugal, só que no sentido inverso.

O que todas as pessoas deveriam saber?

Quando comecei o projeto de residência artística HS13rc em autogestão para Lisboa, lancei esta declaração, de forma provocativa: “O artista não depende da instituição, O ARTISTA É A INSTITUIÇÃO”, que acabou se tornando meio que  um mantra para mim, e que penso que pode ser aplicado à vida de qualquer pessoa, não apenas em seus aspectos profissionais, mas de uma forma geral. Não é preciso autorização ou legitimação externa para se criar ou se ter certeza de que seu trabalho tem valor. Precisamos nos lembrar mais frequentemente disso, que todos temos o poder de começar uma micro revolução pessoal, que sempre afetará algo ou alguém. 

quinta-feira, 16 de outubro de 2014

Outra Lisboa – A rua mais “in” da capital


Quando pensamos na rua mais emblemática de compras em Lisboa dizemos logo “Avenida da Liberdade”. Em outra Lisboa já desaparecida diríamos “Rua Nova dos Mercadores”. Em meados do Séc. XVI, o espaço de encontro entre mercadores passou a ser delimitado por um gradeamento em ferro, passando esta zona da artéria a ser chamada de “Rua dos Ferros”.


"Lisboa, A Rua Nova dos Mercadores', c.1550-1600
Society of Antiquaries of London.
(Este quadro encontrava-se numa casa particular inglesa
 e somente em 2010 foi identificado como sendo a Rua Nova dos Mercadores.)



Esta artéria comercial, referenciada desde o séc.. XIII,  situava-se desde o cruzamento da Rua do Ouro com a  Rua de S. Julião até à esquina da Rua do Comércio com a Rua dos Fanqueiros. Era assim a maior artéria da capital do império comercial Português. Lisboa era assim uma das primeiras cidades “globais” da Europa moderna.
  

Planificação 3D, Museu da Cidade, Lisboa


Imaginem o que seria podermos hoje em dia passear e fazer compras em plena Lisboa com gostinho a Renascimento.




Infelizmente ficou praticamente destruída com o terramoto de 1755.
No museu da cidade podemos ver imagens de planificações em 3D desta que seria a rua das ruas da capital Lisboeta.

quarta-feira, 16 de abril de 2014

Fábio Carvalho, e como Portugal tornou-o num artista da cerâmica.


Fábio Carvalho, artista brasileiro (Rio de Janeiro) esteve envolvido em projetos fulcrais no mapeamento da produção artística emergente no Brasil na década de 1990, quando iniciou a sua carreira. A sua obra já foi apresentada em 12 exposições individuais e em mais de 110 coletivas pelo Brasil e pelo mundo. Cerca de 70 de suas obras fazem parte de coleções públicas e privadas.

Fábio Carvalho.

Os seus trabalhos, intitulados “Macho Toys”,  surgem com a sobreposição e conflito entre os estereótipos de masculinidade (o soldado, os grandes corpos musculados, o cowboy, as armas  e maquinarias de guerra, etc.) e os elementos tradicionalmente atribuídos exclusivamente ao universo feminino ( padrões florais, porcelana, arranjos florais, etc.)

O mesmo acontece na sua série “Portugal – Lenços de namorados” de 2012, onde utiliza os tão conhecidos lenços dos namorados, tradicionais do Minho, que nos remete para um universo feminino de bordados, flores, corações e versos de amor. Onde através da inclusão de objetos do universo masculino, como as armas, cria uma nova imagem ao mesmo tempo interessante e subversivel.  


Bai feliz buando, no bico dum passarinho nº7, da série Portugal – lenços dos namorados, 2012 .  Bordado à mão com fios de lã, pérolas falsas, cristais falsos, missangas, renda industrial e passamanaria sobre toalha de mesa impressa com padrão de lenços de namorados .  125 x 125 cm

Fábio Carvalho é o que podemos chamar de “Homem do Renascimento”, não apenas pelo seu percurso educacional (biologia, informática, artes plásticas e música), mas também pelo facto de não ser um artista dedicado somente a um meio de expressão artística. Já trabalhou com desenho, objetos, colagens, bordados, instalações, fotografia, performance e vídeo. Todavia, ao longo de cerca de 17 anos nunca esteve envolvido com cerâmica artística, área esta onde sempre demonstrou interesse (nos últimos 9 anos tem vindo a fazer trabalho de pesquisa sobre a industria cerâmica no Brasil) mas nunca tinha tido a oportunidade de usar esta forma de expressão, até recentemente.

Em 2011 Fábio Carvalho foi convidado a participar no projeto “Bordallianos do Brasil” (www.bordallianosdobrasil.com),  onde 20 renomados artistas contemporâneos brasileiros foram convidados a vir a Portugal criar uma peça de arte baseada na obra de Rafael Bordallo Pinheiro. Uma personagem tão emblemática da cultura Portuguesa. O projeto pressupôs o encontro entre duas culturas que tanto têm em comum, assim como a fascinação e interesse que Bordallo Pinheiro tinha pelo Brasil. 

O projeto foi composto por duas fases: primeiro, uma residência artística em 2011, na fábrica de faianças artísticas Bordallo Pinheiro, nas Caldas da Rainha. As 20 peças resultantes foram produzidas, numa edição limitada e numerada de 250 unidades, e exibidas ao longo de 2013 no Brasil (Belo horizonte, Rio de Janeiro e São Paulo) e em Portugal (Lisboa).

Durante a residência artística, Fábio Carvalho, criou a sua primeira peça cerâmica de sempre, o “Floreiro Archeiro”, peça do projeto “Bordallianos do Brasil” e criou ainda uma segunda peça, o “Medalhão Archeiro” que agora pertence ao museu da fábrica de faianças Bordallo Pinheiro.

Medalhão Archeiro durante a sua criação na fábrica.

Ambas as peças partilham o ponto de partida através do vaso archeiro de Bordallo Pinheiro e resultam de uma colagem de diversos elementos de outras peças cerâmicas de Bordallo. As próprias cores usadas nas peças foram alteradas de forma a remeter  a leitura para um universo brasileiro. Por exemplo o canário europeu teve as suas cores alteradas de forma a se converter num canário da terra  e o próprio archeiro viu as cores do uniforme alteradas de forma a tornar-se no uniforme militar usado durante os anos do Imperio no Brasil. Desta forma foi criada uma peça única e original que detém tanto do universo de Bordallo, da referência ao Brasil e da linguagem do próprio artista.

Vaso Floreiro Archeiro .  Faiança policromada pintada à mão .  2011/2012  .  43x24x24cm

Devido ao sucesso do seu “Floreiro Archeiro” Fábio Carvalho foi convidado para novas residências artísticas em Portugal, todas elas ligadas à produção cerâmica.

Durante o ano passado Fábio Carvalho passou 2 meses na Fábrica Vista Alegre, em Ílhavo, Portugal, onde participou do programa ID POOL, criado pelo designer francês Sam Baron. Durante a residência Fábio Carvalho criou várias decorações a serem aplicadas a formas já existentes de porcelanas.

Con Gratia et Privilegio .  Decoração criada para a Fábrica de Porcelanas Vista Alegre .  2013

Fábio Carvalho foi também convidado no final de 2013 pela Oficina da Formiga (www.oficinadaformiga.com), também sediada em Ílhavo, para participar em outra residência artística. A Oficina da Formiga é uma pequena fábrica que produz  peças de faiança com técnicas antigas Portuguesas que datam do século XIX.

Nesta residência o artista decidiu seguir um caminho diferente. Utilizar técnicas antigas da pintura em faiança para reproduzir os seus desenhos contemporâneos. Cada peça criada por Fábio Carvalho, na Oficina da Formiga, combina elementos de stencils já existentes com desenhos originais criados pelo artista no centro das peças.

Exército Monarca . Faiança policromada pintada à mão . 31cm . 2013


Durante este ano de 2014, Fábio Carvalho irá voltar novamente a Portugal para participar em outra residência artística em Alcobaça. Cidade onde a tradição da produção cerâmica remonta ao século XII.

A residência terá lugar na São Bernardo Ceramics, fundada nos anos 80 por Manuel da Bernarda, cuja família está envolvida na industria da cerâmica desde 1875.

O projeto e a curadoria da residência artística é de Maria de Fátima Lambert, curadora residente no Porto, atuante em todo o pais, bem como no exterior, incluindo o Brasil.

A São Bernardo Ceramics tem tradição na colaboração como renomados designers internacionais, como Gerald Gulotta, Jasper Conran, James Packer, John Rochas, Arnold Zimmerman and Nancy Smith entre outros. Além de Fábio Carvalho mais 2 artistas brasileiros e 12 portugueses farão parte desta residência artística.

Desta vez Fábio Carvalho pretende produzir uma peça de grande dimensão, de forma a experimentar e ampliar os limites da sua recente experiência em cerâmica. Posteriormente as peças de cerâmica produzidas serão expostas no Museu Nacional Soares dos Reis, no Porto.

Este ano, Fábio Carvalho foi também convidado a englobar um grupo de 10 artistas internacionais para criar, em Lisboa, uma peça de grande dimensão com os tradicionais azulejos portugueses. Estas peças serão montadas em fachadas de prédios devolutos.

Portugal tornou assim este artista brasileiro num também apaixonado artista de cerâmica.
Além de todas estas inclusões no mundo da cerâmica portuguesa, ao longo de outros trabalhos, Fábio Carvalho tem vindo cada vez mais a enaltecer e divulgar a cultura tradicional portuguese de uma forma ímpar.